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Taioba

24 set 2013

Depois que você conhece a taioba, parece que a vê em todo lugar. Na estrada, descendo para o litoral de São Paulo, é possível perceber os tufos de folhas verde escuras no meio da mata, fincados ao lado das bananeiras e abaixo das árvores mais altas. Se você reparar ainda mais, a verá em alguns canteiros e jardins dos parques da cidade, como plantas ornamentais. Conhecida também como orelha de elefante, é planta típica da Mata Atlântica brasileira, e sendo assim, aparece em parte dos estados do sudeste subindo até a Bahia.

Curioso saber que a taioba (Xanthosoma sagittifolium) já é conhecida de muito tempo, sendo descrita nos primeiros relatos de cronistas estrangeiros que vieram ao país para relatar à Europa o que existia na fauna e flora do Novo Mundo. “É espécie de couve, que tem folhas largas, semelhante às do nenúfar [plantas aquáticas] das nossas lagoas”, descreveu o francês Jean de Léry, da década de 1550.  Já o português Gabriel Soares de Souza, disse assim sobre ela: “As folhas destes mangarás [raízes da taioba] nascem em muitas, como os espinafres, e da mesma cor e feição, mas muito maiores; e assim moles como a dos espinafres, as quais se chama taiobas, também servem cozidas com o peixe.”

Mas se a taioba já era tão presente em 1500, por que desapareceu do prato de quem mora da região sudeste? Uma possível explicação: medo de envenenamento. Assim como a mandioca que tem uma versão brava, a Colocasia antiquorum é a variedade perigosa da taioba. É rica em oxalato de cálcio que, em humanos, pode causar sufocamento (!). Por isso, se uma taioba de talos roxos cair em suas mãos, melhor não arriscar. A que pode ser consumida é a de caule verde claro, que tem pouca concentração da substância tóxica, e que, após o cozimento, é eliminada completamente.

Bolinhos de taioba do chef Eudes Assis   Crédito: Divulgação

Bolinhos de taioba do chef Eudes Assis Crédito: Divulgação

O chef caiçara Eudes Assis é um defensor da taioba na cozinha. Cresceu comendo as folhas e raízes da planta na praia de Boiçucanga, de São Sebastião (SP), onde vive atualmente. É dele a receita de bolinho que está aí no pé do texto. Testei e é supimpa! As folhas fatiadas e refogadas lembram o gosto do espinafre e da couve mesmo, só que o sabor é mais suave. Comprei o meu maço na feira orgânica do Parque da Água Branca, em São Paulo. Não achei à venda as raízes que, parecidas com o inhame, podem ser misturadas ao picadinhos de carne, ou em sopas e cozidos. Já o talo macio pode virar purê delicado.

De cultivo fácil – adora tempo úmido e calorento –, a taioba mansa poderia estar nas prateleiras do supermercados. É super nutritiva em ferro. Mas, assim, como ora-pro-nobis, ainda fica muito restrita às hortas domésticas. Uma pena.

BOLINHOS DE TAIOBA

20 unidades

Ingredientes:

400 g de taioba fatiada (assim como se faz com a couve)

200 g de farinha de trigo

200 g de purê de batata

1 colher (chá) de fermento em pó

50 g de cebola picada

30 g de manteiga

Farinha de mandioca fina para empanar

Sal e pimenta do reino a gosto

Modo de preparo:

Refogue a cebola na manteiga. Depois, adicione a taioba e o purê de batata. Acrescente a farinha de trigo e o fermento, e mexa até desgrudar do fundo da panela. Tempere com sal e pimenta do reino a gosto. Deixe esfriar. Depois faça os bolinhos com a ajuda de duas colheres e empane na farinha de mandioca fina (não precisa passar no ovo!). Frite em óleo bem quente.

 

Referência:

HUE, S. M.. Delícias do descobrimento: a gastronomia brasileira no século XVI. Colaboração: SANTOS, Ângelo Augusto dos; MENEGAZ, Ronaldo. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2008.


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3 Comentários

  1. Wagner Pereira
    Postado março 24, 2014 em 8:38 pm | #

    Adorei o texto sobre taioba! Fez parte da minha infância na Baixada Fluminense, RJ. Aprendi a gostar com minha avó e minha mãe. Faz muitos anos que não como. Espero encontrar aqui em São Paulo.

    • rachel bonino
      Postado março 26, 2014 em 10:32 am | #

      Olá, Wagner!
      Como comentei acima, eu encontro taioba na feira orgânica do Parque da Água Branca. ;)
      abs.,
      Rachel

  2. Postado agosto 13, 2014 em 2:26 pm | #

    Adorei. No começo do texto fiquei um pouco preocupado com os tipos de taioba, mas, na medida que fui avançando a leitura percebi que você o autor orientou sobre a taioba venenosa. Vale salientar que nos jardins também aparecem umas falsas taiobas que é o famoso tinhorão, esse é venenoso. Comi muita taioba folhas raízes, pois, nasci em MG e filho de capixaba já viu né. Hoje moro em Rondônia, mas aqui, por ser uma região colonizada por sulistas embora ela produz com muita facilidade não é muita consumida infelizmente.

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